
Ron "Bumblefoot" Thal
por
Thiago Verpa
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CG - O que
você tem feito recentemente?
Tanta coisa!
Desde que voltei da tour (com o Guns N’ Roses) no último mês de
Dezembro, eu me isolei no estúdio, finalizando anos de música e
olhando para anos de planos que eu espero concretizar esse ano. Fiz
solos como convidado em músicas, escrevi músicas próprias, covers...
é bom poder finalmente fazer as coisas que estiveram na minha cabeça
por tanto tempo.
CG -
Recentemente você lançou a música “Real” para o jogo Rock Band. Qual
a sua opinião sobre esses jogos que os garotos e garotas parecem
gostar tanto? Você acha que é o primeiro passo para elas pegarem um
instrumento de verdade, ou você acha que apenas da a ilusão de que
tocar um instrumento é fácil?
Graças à esses
jogos, as pessoas foram expostas a uma tonelada de músicas, as quais
elas nunca teria ouvido de outra forma. Isso torna a música parte da
vida das pessoas, e tenho certeza de que muitas delas se sentiram
inspiradas a fazerem suas próprias músicas. Para mim é tudo positivo.
CG - O que
inspira você a escrever música nos dias de hoje?
Tem que ser algo
que cause impacto na minha vida num nível emocional. Queria muito
poder apenas sentar e dizer “Vou escrever uma música hoje” mas não é
assim que funciona pra mim, a não ser que eu esteja colaborando com
alguém. Se estou sozinho, uma bomba precisa ser jogada no meu mundo,
e assim o resultado será algo legítimo..
CG - Quando
você começou a tocar, como era sua rotina para praticar? Existe
algum exercício ou algo que mudou completamente sua visão sobre a
guitarra?
Eu comecei a
tocar com 6 ou 7 anos de idade. Os primeiros anos foram puramente
acadêmicos, lendo livros introdutórios escritos por Mel Bay com um
metronomo, aprendendo acordes e teoria musical... eventualmente eu
comecei a aprender músicas e mais técnicas, e quando eu era um
adolescente era realmente focado nisso, e passava horas por dia
tocando, fazendo jams, eu simplesmente não cansava disso. O que
mudou tudo para mim foi ouvir Eddie Van Halen pela primeira vez,
abriu meus olhos para o fato de como a guitarra poderia ser
inovadora, e mudou toda a minha visão sobre ela.
CG - Qual sua
opinião sobre a indústria da música nos dias de hoje? Se você
pudesse ter uma reunião com grandes gravadoras que ainda sobrevivem
no mundo, o que você diria?
Primeiro eu
diria que há 10 anos atrás eles não deveriam ter atacado o Napster,
ou sites de música independentes como o mp3.com era antes. Esse era
o futuro da música e eles tentaram destruí-lo, quando eles poderiam
tê-lo abraçado. Eles não deveriam ter sido tão arrogantes a ponto de
pensar que os consumidores precisavam deles. Na verdade é o
contrário, e eu venho dizendo isso por mais de uma década “Artistas
podem sobreviver sem gravadoras, mas gravadoras não podem sobreviver
sem artistas. Lembre-se disso e não assine contratos ruins, você
apenas dará poder a um sistema falido que precisa ser
reestruturado.” Agora, a música e sua capacidade de distribuição
foram equalizadas; qualquer um pode fazer música e promover no mundo
todo através da internet. Todos tem uma arma do mesmo tamanho, o que
nos separa agora é o quão bem você pode atirar.
CG - De onde
você tirou o apelido “Bumblefoot”? Você tinha outros apelidos antes
desse?
Eu estou comendo
batatinhas agora. Cada vez que eu termino de responder uma pergunta
eu como uma. É uma forma de moderar a velocidade em que eu como, e
me impede de procrastinar – Eu quero as batatinhas, então digito
mais rápido. Isso funciona. OK, o apelido. Bumblefoot é uma doença
animal. Ulcerative Pododermatitis. Eu aprendi sobre isso quando
minha namorada estava estudando medicina veterinária. Começou como
uma música, e então se tornou o conceito do meu primeiro álbum, “The
Adventures of Bumblefoot” (1995, Sharpnel Records), e então se
tornou o nome da minha banda. Sendo o vocalista, guitarrista,
compositor, o nome da banda definia tudo o que eu estava fazendo
musicalmente, e se tornou um apelido.
CG - Sobre as
suas guitarras, de onde você tirou as idéias para fazê-las? Você já
teve aulas de luthier?
Crunch, crunch,
outra batatinha...... a maioria das idéias não foi planejada, elas
se tornaram o que são durante o processo. Muito do que faço é assim,
feito da espontaneidade, o que pra mim é a forma mais verdadeira de
expressão. Tudo que fiz para construção de uma guitarra foi por
tentativa e erro, com certa enfase no erro,haha. Aprendendo da forma
mais difícil que a entonação vem do comprimento da corda dependendo
de onde ela sai da ponte, e não dos furos que pré-determinam onde
você vai prender a ponte. Erros são as melhores ferramentas para se
aprender. A guitarra Swiss Cheese (Queijo Suíço) começou com uma
idéia de fazer ela parecer como se tivesse sido mordida, mas
não estava nada parecido e eu simplesmente
continuei sem nenhum plano até que ela estivesse cheia de buracos.
Naquele momento eu soube que ela deveria ficar daquele jeito,
pintada de amarelo, e passei os doze anos seguintes gravando e
excursionando com ela.
CG - Você
está trabalhando no seu próximo album solo no momento? Se sim, o que
podemos esperar?
Esse ano eu vou
lançar uma música por vez, singles. Um álbum é mais um investimento
de tempo que eu tenho com todas as tours. Uma música por vez é algo
fácil de lidar, é a melhor forma de lançar música, e manter a coisa
funcionando. No entanto, não vou simplesmente lançar as músicas, vou
fazer de uma forma diferente. Eu vou lançá-la em diversos formatos
em alta resolução – WAV, FLAC, MP3 (320kbps), M4A – Também farei a
versão instrumental de cada música disponível. Então haverá também
um “Player Pack” para guitarristas, com todas as partes de guitarra
transcritas e solos, com tablaturas, partituras,palhetadas, dedos, e
todas as instruções possíveis, e isso virá com uma backing track em
WAV ou MP3, uma verão da música sem a guitarra principal para que as
pessoas possam tocar junto. Também lançarei o “Producer Pack”
voltada para quem gosta da parte do estúdio, com derivações da
música em WAV 24-bit – um arquivo estéreo da bateria, do baixo, da
guitarra rítmica, guitarra solo, vocais e backing vocals para que
você possa jogar no seu software multi-track e fazer sua própria
mixagem, editar, ou apenas separar as faixas para ouvir como cada
uma soa sozinha. Eu lancei a primeira música, “Bernadette”, na
metade de janeiro, é um cover punk e pesado de uma antiga música da
Motown do Four Tops.
Veja aqui:
http://tinyurl.com/NewBumblefootSong
CG - Por que
você decidiu relançar o “The Adventures of Bumblefoot” ?
Na verdade foi
uma decisão da Sharpnel Records. Eles possuem os direitos desse
album e do seguinte, “Hermit.” O album esteve for a de catálogo por
doze anos, e parece que a única forma de consegui-lo era no eBay,
onde já vi ele custar $600. Agora, 15 anos depois, a Sharpnel
relançou o album, e estou muito feliz com isso. Nós adicionamos
faixas bônus da trilha-sonora de um jogo que gravei para a Sega em
1995, totalizando 19 faixas. Se você comprar o CD na minha loja
online (
www.bumblefoot.com/store ) ele estará autografado e $5 irão para
a pesquisa sobre a Esclerose Multipla. Eu também lancei um livro de
transcrições do álbum – eu passei seis meses transcrevendo todos os
detalhes de cada uma das músicas – a tablatura, partitura, digitação,
palhetada, dedilhado, sons estranhos, absolutamente tudo. É um livro
de 200 páginas, e também está disponível na minha loja online.
CG - Você
possui um jeito um pouco agressivo de cantar, isso vem naturalmente?
Você acha?
Talvez não de um jeito hardcore ou metal, mas talvez na questão de
expor minhas entranhas, sim. Eu canto da forma que estou me sentindo,
como a música faz eu me sentir. As músicas do álbum “Barefoot” não
são agressivas mas são emocionais e honestas, e são bem dinâmicas,
porque há espaço para isso. Quando estou cantando uma música que é
uma martelação constante de energia, os vocais vão responder a isso.
Acho que é isso, deixar o que estou sentindo vir pra fora.
CG - Se você
pudesse formar uma banda com quaisquer músicos do mundo (vivos ou
mortos), quem você escolheria?
Ok, para não
passer as próximas 3 horas pensando em nomes e motives, eu vou
escolher os primeiros que aparecerem na minha cabeça, e vou excluir
qualquer um que já esteve numa banda comigo... John Sykes nos vocais
e guitarra, Paul Mccartney nos vocais e piano, Keith Moon na bateria,
Flea no baixo, e eu num canto apenas olhando com meu queixo no chão.
CG - Você
pratica quando está em turnê?
Sim, mais do que
quando não estou. Eu tento manter uma guitarra na mão todos os dias
por pelo menos uma hora, se não algumas horas. O pulso da minha mão
esquerda é curvado para diversos ângulos quando estou no palco, e eu
preciso mate-lo alongado e acostumado com o ângulo, se não os dedos
perdem a força.
CG - Qual
equipamento você usa na Estrada? Algum favorito?
Eu uso um
cabeçote Engl Invader100, com um pedal wah da Dunlop e um TC
Eletronic Nova System multi-fx com um pedal de expressão no FX Loop
do Engl. O cabeçote vai num Hermit com falantes Celestion e dois
microfones AT4050. Também uso uma guitarra Vigier G.V., uma guitarra
Vigier personalizada sem trastes e de braço duplo, e um violão
Parkwood PW-370M. É isso, bom e simples. Há um vídeo com mais
detalhes aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=sF9gzyIQHWE
Links dos equipamentos:
www.vigierguitars.com
www.engl-amps.com
www.tcelectronic.com
www.parkwoodguitars.com
www.hermitcab.com
CG - Eu sei
que você não costuma fazer planos, mas você acha que seus albuns
“Normal” e “Abnormal” teriam uma terceira parte, como
“Post-Abnormal” (Pós-Anormal) ou talvez “Abfreak”?
Haha, eu acho
que o Normal e o Abnormal completam um ao outro, como ying e yang...
CG - Qual o
melhor conselho que você pode dar para todos os guitarristas por aí
fora?
Não se atrase.
Não seja um idiota. Não esteja despreparado. Seja diversificado, não
seja apenas um guitarrista. Seja um compositor, um professor, um
engenheiro, faça o design da capa do seu disco e posters da turnê,
contrate bandas, tente de tudo e veja no que você é bom e o que você
gosta de fazer. Seja o mais auto-suficiente que você puder, e use o
que você sabe para ajudar os outros.
CG - Se
música não fosse a sua praia, você teria um emprego diferente, como
um economist, ou talvez um comediante?
Eu venderia
pornografia. Falando sério, eu não faço idéia,
venho fazendo isso a minha vida toda e de tantas formas diferentes,
que não consigo imaginar minha vida sem música de alguma forma.
Eu faço porque é a
minha paixão.
CG - Você
parece ter muitos interesses, como culinária, artes, melhorias na
casa, conte sobre outras coisas que as pessoas não sabem sobre você.
Eu não sei o que
as pessoas não sabem sobre mim, haha. Elas normalmente me
surpreendem com o que “sabem”, haha. Ok, vou falar algo que não faz
sentido nenhum. Uma vez eu passei três dias dizendo apenas as
palavras “galinha,” “lésbica” e “cebola” com um sotaque cajun bem
forte. Diferentes combinações e ordens das palavras. As vezes eu
jogava a palavra “limão.” Eu lembro que precisava dar aulas de
guitarra, e os meus alunos se matavam de rir, me seguiam até o
Subway (cadeia de lanchonete americana) e me observavam tentando
pedir um sanduíche, ou atendendo ao telefone. Estava pensando em
fazer um álbum onde suas 12 músicas e letras seriam variações de
frango-lésbica-cebola ditas com sotaque cajun. Eu até comprei o
domínio LesbianOnion.com (LésbicaCebola.com) até o ano de 2017.
CG - Que tipo
de filmes e programas de TV você gosta de assistir?
Simpsons, South
Park, Uma Família da Pesada, filmes ‘B’ ruins, filmes de terror, mas
o meu favorito de todos os tempos é ‘Além da Imaginação’. Há um ano
ou dois, eu e Tommy Stinson estávamos conversando sobre formar uma
banda chamada The Serlings (nome tirado do criador de “Além da
Imaginação”, Rod Serling) e fazer cada música baseada em um episódio
diferente de Além da Imaginação. Foi algo que tentamos no passado.
Tinha uma música meio Pink Floyd chamada ‘King Nine Will Not
Return,’ mas não pegou. Se uma música não fica na minha cabeça, ela
não é gravada.
CG - Eis aqui
uma pergunta que eu faço pra todo mundo que eu entrevisto: após
tantos anos tocando, você conseguiu tudo o que queria na vida? Algum
sonho a ser conquistado ainda?
Não estou nem
perto de conseguir tudo o que quero na vida. E se eu conseguisse,
iria querer algo mais. É parte do que sou, não uma insatisfação, é
mais uma vontade de levar tudo um passo adiante. Quando eu era
criança eu sonhava em tocar no Madison Square Garden, após ver meu
primeiro show ali, do Kiss, em 1979. Esse sonho se realizou em 2006.
CG - Aluga-se
este espaço: diga o que quiser, o espaço é seu.
Em fevereiro eu
planejo me leiloar (musicalmente) para levantar fundos e ajudar
vítimas de enchente no Brasil e em outros países precisando de apoio.
Por favor, acesse bumblefoot.com, facebook.com/bumblefoot e
twitter.com/bumblefoot para saber mais sobre isso, e para ter mais
informações sobre músicas que eu vou lançar. Obrigado!
Ron
Originally posted at:
http://www.conexaoguitarra.com.br/entrevistas/ron-bumblefoot-thal/ |